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Aqueles Que Meteram o Nosso Nome na Lama

José Vitorino de Andrade

 Padre

No discurso realizado pelo Santo Padre, por ocasião do final do encontro relativo à proteção de menores na Igreja, o Papa Francisco usou palavras muito duras e claras quanto a este flagelo.

Ótimo!!! Precisamos agora passar das palavras aos atos, se é certo que “na ira justificada das pessoas, a Igreja vê o reflexo da ira de Deus, traído e esbofeteado por estes consagrados desonestos. O eco do grito silencioso dos menores, que, em vez de encontrar neles paternidade e guias espirituais, acharam algozes”. O Pontífice recordou neste âmbito e de modo muito apropriado as palavras de Jesus: “Se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem em Mim, seria preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar. Ai do mundo, por causa dos escândalos! São inevitáveis, decerto, os escândalos, mas ai do homem por quem vem o escândalo” (Mt 18, 6-7). É fundamental levar-se à justiça aqueles que cometeram a monstruosidade do abuso de menores, com uma “seriedade impecável” como é lembrado no ponto segundo do discurso, a fim de que a Igreja não poupe “esforços fazendo tudo o que for necessário para entregar à justiça toda a pessoa que tenha cometido tais delitos”. Porque sabendo, sem dúvida, tratar-se de uma minoria de sacerdotes e até mesmo de bispos, entre os que praticaram e acobertaram tais crimes, entre tantos e tantos que são sinceros e honestos, o dano causado aos inocentes, o escândalo social e eclesial, exige uma ação vigorosa de purificação, como pretende o Papa Francisco. E nós, sacerdotes, talvez depois das vítimas, somos os primeiros a exigir tal atitude, porque depois dos inocentes abusados, e das suas famílias, somos nós que sofremos no terreno e no apostolado com as acusações que fazem à pedofilia na Igreja. O nosso nome foi lançado à lama. Andamos na rua identificados e cospem-nos aos pés, passamos junto a uma escola e ouvimos desaforos das crianças, por vezes até “PEDÓFILO” alguns energúmenos gritam na rua, chegamos a aeroportos e ficamos três horas retidos pela polícia que revista o nosso computador portátil para ver se não temos pornografia infantil. Sombras monstruosas passaram a assombrar todos.

 

Não se trata somente do bombardeamento da imprensa e da média em geral, com as suas “polémicas ideológicas e as políticas jornalísticas que frequentemente instrumentalizam, por vários interesses, os próprios dramas”, os mesmos médias que o Santo Padre responsabiliza por ter a sua quota de responsabilidade quanto ao fenómeno dos abusos sexuais dado o desenvolvimento da web e dos mass-media que hoje acusam a Igreja de uma consequência daquilo que eles ajudaram a difundir: a pornografia. Como se fossem inocentes na erotização da pessoa, sobretudo de aparência jovem. São também responsáveis em grande parte pelo aumento da cristianofobia e do anticlericalismo devido a meterem tudo e todos no mesmo saco. E não! Não somos todos pedófilos. Como não o são todos os jornalistas, embora também haja muitos podres entre eles. Duvido mesmo que a sua moralidade seja maior para apontar o dedo. Não foi há muito tempo que alguns apresentadores conhecidos foram a tribunal por causa do abusos de menores, e um ou outro continua com grande destaque atrás do ecrã. Mas o escândalo eclesiástico é que vende, e poucos fazem um trabalho para erradicar o flagelo da pedofilia, visando somente apontar o canhão mediático para estraçalhar a Igreja e causar sensacionalismo. Entretanto, o Papa Francisco lembra a universalidade deste fenómeno: “A primeira verdade que resulta dos dados disponíveis é esta: quem comete os abusos, ou seja, as violências (físicas, sexuais ou emotivas) são sobretudo os pais, os parentes, os maridos de esposas-meninas, os treinadores e os educadores. Além disso, segundo os dados Unicef de 2017 relativos a 28 países no mundo, em cada 10 meninas-adolescentes que tiveram relações sexuais forçadas, 9 revelam que foram vítimas duma pessoa conhecida ou próxima da família. Na Europa, 18 milhões de crianças são vítimas de abusos sexuais. Se tomarmos o exemplo da Itália, o relatório 2016 de «Telefone Azul» salienta que 68,9% dos abusos acontece dentro das paredes domésticas do menor […] Outro flagelo é o turismo sexual: anualmente, segundo os dados 2017 da Organização Mundial de Turismo, três milhões de pessoas no mundo viajam para ter relações sexuais com um menor… na maior parte dos casos, os autores de tais crimes não sabem que estão a cometer um reato.” Onde está o mediatismo para erradicar estes fenómenos? Não existe, porque eles não estão preocupados em ser profetas da verdade, mas apenas achincalhar a Igreja…

 

Mas isto não pretende desviar o assunto deste fenómeno na Igreja, por isso volto ao tema, e talvez à sua parte mais importante e exigente: a vítimas, as primeiras a precisarem de apoio. “Acompanhar as pessoas abusadas: o mal que viveram deixa nelas feridas indeléveis que se manifestam também em rancores e tendências à autodestruição. Por isso, a Igreja tem o dever de oferecer-lhes todo o apoio necessário, valendo-se dos especialistas neste campo. Escutar… eu diria ‘perder tempo’ escutando. A escuta cura a pessoa ferida, e cura-nos a nós também do egoísmo, da distância, do ‘não me diz respeito’”. E nada mais consolador do que aqueles que têm fome e sede de justiça verem esta a ser realizada na terra. É preciso expulsar da Igreja os culpados e levá-los ao tribunal dos homens, enquanto não se apresentam ao de Deus. Precisamos extirpar este cancro, e para tal, como pretende o Santo Padre, “uma verdadeira purificação: apesar das medidas tomadas e os progressos realizados em matéria de prevenção dos abusos, é necessário impor um renovado e perene empenho na santidade dos pastores, cuja configuração a Cristo Bom Pastor é um direito do povo de Deus”. Uma purificação vai animar os bons, alertar os menos bons e extirpar os maus. Isto não significa, conforme exagero recente, tornar a todos culpados até se provarem inocentes. Os padres e bispos não têm cada um de provar a sua inocência. Mas havendo acusações concretas, provadas as culpas de pessoas concretas, que sejam exemplarmente condenadas pelo direito civil e o eclesiástico.  É preciso levar a sério as acusações feitas, como pede o Papa Francisco: “Nenhum abuso deve jamais ser encoberto (como era habitual no passado) e subestimado, pois a cobertura dos abusos favorece a propagação do mal e eleva o nível do escândalo”.

 

É muito consoladora a parte final do discurso do Papa Francisco, que reproduzo na íntegra. Leia até ao fim, não se arrependerá…

 

Permitam-me agora um sentido agradecimento a todos os sacerdotes e aos consagrados que servem o Senhor com total fidelidade e se sentem desonrados e desacreditados pelos vergonhosos comportamentos dalguns dos seus confrades. Todos – Igreja, consagrados, Povo de Deus e até o próprio Deus – carregamos as consequências das suas infidelidades. Agradeço, em nome da Igreja inteira, à grande maioria dos sacerdotes que não só permanecem fiéis ao seu celibato, mas se gastam num ministério que hoje se tornou ainda mais difícil pelos escândalos de poucos (mas sempre demasiados) dos seus irmãos. E obrigado também aos fiéis que conhecem bem os seus bons pastores e continuam a rezar por eles e a apoiá-los.

 

Por fim, gostaria de assinalar a importância de dever transformar este mal em oportunidade de purificação. Fixemos o olhar na figura de Edith Stein (Santa Teresa Benedita da Cruz), com a certeza de que, «na noite mais escura, surgem os maiores profetas e os santos. Todavia a corrente vivificante da vida mística permanece invisível. Certamente, os eventos decisivos da história do mundo foram essencialmente influenciados por almas sobre as quais nada se diz nos livros de história. E saber quais sejam as almas a quem devemos agradecer os acontecimentos decisivos da nossa vida pessoal, é algo que só conheceremos no dia em que tudo o está oculto for revelado».[17] No seu silêncio quotidiano, o santo Povo fiel de Deus continua de muitas formas e maneiras a tornar visível e a atestar com «obstinada» esperança que o Senhor não abandona, que apoia a dedicação constante e, em muitas situações, atribulada dos seus filhos. O santo e paciente Povo fiel de Deus, sustentado e vivificado pelo Espírito Santo, que é o rosto melhor da Igreja profética que, na sua doação diária, sabe colocar no centro o seu Senhor. Será precisamente este santo Povo de Deus que nos libertará do flagelo do clericalismo, que é o terreno fértil para todos estes abomínios.

 

O melhor resultado e a resolução mais eficaz que podemos oferecer às vítimas, ao Povo da Santa Mãe Igreja e ao mundo inteiro são o compromisso em prol duma conversão pessoal e coletiva, a humildade de aprender, escutar, assistir e proteger os mais vulneráveis.

 

Faço um sentido apelo à luta total contra os abusos de menores, tanto no campo sexual como noutros campos, por parte de todas as autoridades e dos indivíduos, porque se trata de crimes abomináveis que devem ser cancelados da face da terra: pedem isto mesmo as muitas vítimas escondidas nas famílias e em vários setores das nossas sociedades.

Via: Aportes da Igreja