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"Devoção à Santa Chaga do Ombro

– de S. Bernardo à B. Alexandrina –"

Pedro Sinde 

 Filósofo, Escritor e Bibliotecário

A devoção às santas chagas é muito antiga e exprime a nossa gratidão para com o sofrimento que Cristo ofereceu por nós. De entre as santas chagas, a do lado é a que, compreensivelmente, suscita maior devoção. Por alguma razão, no entanto, o Senhor ocultara de nós a existência de uma chaga, para além das outras cinco, bem como todo o terrível sofrimento causado por ela. Trata-se da chaga do ombro, essa que suportou o peso da cruz durante o caminho do Calvário.

É fácil de ver o alcance do fundo simbolismo da devoção a esta santa chaga, tendo que resultado do peso da cruz, da nossa cruz. Pouco a pouco, o Senhor foi revelando a importância desta chaga, cujo sofrimento guardara apenas para Si mesmo, deixando entrever, ao mesmo tempo, o desejo de que ela seja honrada. Vamos ver alguns momentos deste processo de desvelamento.

S. Bernardo de Claraval (1090-1153)

Diz a tradição que um dia Jesus apareceu a S. Bernardo e este Lhe perguntou: “Qual foi a Tua maior e mais desconhecida dor?”

Jesus respondeu: “Eu tinha uma chaga no ombro, em que carreguei a cruz. Esta chaga era mais dolorosa do que as outras. Os homens não fazem menção dela, porque lhes é desconhecida. Honra-a, pois, e Eu vos concederei tudo o que me pedirdes por ela. Todos aqueles que a venerarem, obterão a remissão dos seus pecados veniais e graças eficazes para alcançar o perdão dos pecados mortais que tiverem cometido.”

S. Bernardo, depois de receber esta mensagem de Cristo sobre a dor que experimentou no Seu ombro, procurou promover a devoção a esta chaga, tendo composto a seguinte oração:

 

Ó amabilíssimo Jesus, manso cordeiro de Deus, apesar de eu ser uma criatura miserável e pecadora, Vos adoro e venero a chaga causada pelo peso de Vossa cruz, que dilacerando Vossas carnes, desnudou os ossos de Vosso ombro sagrado de que Vossa Mãe dolorosa tanto se compadeceu.

(Para a oração completa, ver o anexo) .

 

Santa Brígida da Suécia (1303-1373)

 

Depois de S. Bernardo, voltamos a encontrar referência à santa chaga do ombro em Santa Brígida, na famosa oração dos Sete Pai-Nossos, mais precisamente no quinto mistério, intitulado “O Caminho da Cruz”:

 

Pai eterno, pelas mãos imaculadas de Maria e pelo divino Coração de Jesus, eu Vos ofereço os sofrimentos de Jesus na Via-Sacra, em particular na Santa Chaga do ombro e o preciosíssimo Sangue da mesma, para aliviar o peso da Cruz, como reparação da minha revolta e da de todos os homens contra a Cruz, do meu murmurar contra as determinações da Vossa Santa Vontade e de todos os outros pecados de língua, como prevenção contra tais pecados, e para obter o verdadeiro amor à Santa Cruz.

 

Se, com S. Bernardo, ficámos a conhecer a dor imensa da chaga do ombro – a mais dolorosa das chagas; agora, com Santa Brígida acrescentámos ao nosso conhecimento desta devoção a referência explícita ao preciosíssimo Sangue que resulta do peso da cruz que, como dirá a Beata Alexandrina, pesa uma humanidade.

 

S. Pio de Pietrelcina (1887-1968)

 

Há alguns anos, tornou-se pública uma outra história (narrada no livro O Papa e o Frade, Stefano Campanella) ligada à chaga do ombro, mas desta vez em torno de Padre Pio; teria acontecido em Abril de 1948. O então jovem Pe. Wojtyla, futuro Papa João Paulo II, tendo visitado o Padre Pio, perguntou-lhe, quase como S. Bernardo: “Padre Pio, qual das suas feridas lhe causa mais dor?

O Pe. Wojtyla esperava, naturalmente, que o Padre Pio referisse a ferida do lado; no entanto, em vez disso, ouviu a seguinte resposta: “É a ferida do ombro, que ninguém conhece e que nunca foi curada nem tratada.

 

Há ainda um outro relato que vem confirmar a existência e a importância daquela chaga em Padre Pio; este confidenciou um dia ao Ir. Modestino Fucci que as suas maiores dores ocorriam quando mudava de veste. O Ir. Modestino, tal como o tal como o Pe. Wojtyla antes, pensou que o Padre Pio se estava a referir às dores da ferida do lado. No entanto, em 1971, foi atribuída ao Ir. Modestino a tarefa de fazer o inventário de todos os itens de Padre Pio, falecido em 1968. Foi assim que ele descobriu que, numa das vestes do Padre Pio, havia uma mancha circular de sangue na área do ombro direito.

Nessa mesma noite, o Ir. Modestino dirigiu-se em oração ao Padre Pio para que este o esclarecesse sobre o significado da mancha de sangue na camisa, pedindo um sinal sobre se Jesus realmente tivera uma chaga no ombro. Depois, foi dormir e despertou pela uma hora da madrugada com uma terrível, angustiante dor no ombro, como se tivesse sido cortado por uma faca até ao osso. Parecia-lhe que iria morrer de dor se esta continuasse, mas durou apenas um curto período de tempo. Em seguida, a sala encheu-se com o aroma de um perfume celestial de flores – o sinal da presença espiritual do Padre Pio – e ouviu uma voz que dizia: “Era isto o que eu sofria!” (Frank Rega, A verdade sobre os estigmas do Padre Pio)

 

Beata Alexandrina (1904-1955)

Mas a história da devoção à Santa Chaga do Ombro tem ainda um outro protagonista menos conhecido: a Beata Alexandrina, que teve como uma das suas várias missões a propagação da esquecida devoção à santa chaga do ombro, dando-nos a conhecer um outro aspecto, como veremos.

A Santa Chaga do Ombro e as seis primeiras quintas-feiras.

A 9 de Fevereiro de 1945, Jesus dá-lhe a entrever a importância desta chaga: um sacerdote estava em vias de se perder; o Senhor pede à Beata que ofereça um sacrifício em honra da chaga do Sagrado Ombro. A Beata acede, com a sua impressionante coragem habitual e sua perfeita conformidade à Vontade de Deus:

 

Alexandrina: “Ó meu Jesus, eu quero oferecer-Vos tudo, para Vos consolar e para os salvar. Escolhei a reparação que quereis, dai-me a Vossa graça e força divina, com ela estou pronta para todo o sacrifício.”

 

Jesus: “Aceitas quinze ataques do demónio a mais do que terias de sofrer? Algumas noites sofrerás dois combates. Oferece-Me cinco por cada um deles em honra das Minhas divinas chagas. Desejava tanto que elas fossem mais amadas e mais amado fosse o meu divino Coração. Espalha, espalha, incendeia no mundo o Meu divino amor. Aceita e oferece-Me mais um combate em honra da chaga do Meu sagrado Ombro; oferece-Ma pelo sacerdote. Concorreu tanto para Ma aprofundar! Oh! quanto Eu sofri com ela!”

 

Alexandrina: “Bem sabeis, meu Jesus, que os combates do demónio são o maior sacrifício que podeis pedir-me, mas, se com eles Vos posso dar consolação, se só eles podem reparar, como é preciso para tão grandes crimes, aqui me tendes, Jesus, aqui me tendes, Amor, sou a Vossa vítima, quero salvar essas almas ceguinhas pelo pecado, quero desviar para longe do Vosso divino Coração esses cruéis golpes que vêm ferir-Vos.”

 

E uma semana depois, dia 13 de Fevereiro de 1945, narra:

 

“O primeiro ataque ofereci-o a Jesus em honra da chaga do Seu santíssimo Ombro e para reparar pelo sacerdote, como Jesus me pediu. Quando eu dizia a Jesus que era pelo sacerdote, então é que o demónio se enraivecia contra mim. Senti a dor, dor mortal, que já expliquei. Sem poder resistir a ela, disse: ‘Morro, morro, Jesus. Se morrer, morro contente, morro vítima do Vosso amor, morro vítima daquela alma’.”

 

Primeiras Quintas-Feiras.

 

Finalmente, a 24 de Fevereiro de 1949, a Beata Alexandrina, num dos diálogos com o Senhor, ouviu deste a grande promessa:

 

Jesus: “Minha filha, Minha esposa querida, faz com que Eu seja amado, consolado e reparado na Minha Eucaristia. Diz em Meu Nome que todos aqueles que comungarem bem, com sinceridade, humildade, fervor e amor em seis primeiras quintas-feiras seguidas e junto do Meu Sacrário passarem uma hora de adoração, e íntima união Comigo lhes prometo o Céu. É para honrarem pela Eucaristia as Minhas Santas Chagas, honrando primeiro a do Meu Sagrado Ombro tão pouco lembrada. Quem isto fizer, quem às Santas Chagas juntar as dores da Minha Bendita Mãe, e em nome delas Nos pedirem graças, quer espirituais, quer corporais, Eu lhas prometo; a não ser que sejam de prejuízo à sua alma. No momento da morte, trarei Comigo Minha Mãe Santíssima para as defender.”

 

Alexandrina: “Ó meu Deus, como Vós sois bom, como é infinita e sem limites a Vossa misericórdia. Permiti que todos comunguem bem, com as devidas disposições, para se tornarem dignos das Vossas divinas promessas. Alcançai-me, meu Jesus, para mim a mesma graça.

 

Assim, com a Beata Alexandrina, culmina a devoção à Santa Chaga do Ombro. Reparemos que foi a oferta em honra da chaga do ombro que o Senhor pediu para resgatar aquele sacerdote no caminho da perdição. Vemos ainda que a chaga do ombro deve mesmo ser contada e acrescentada como mais uma entre as cinco outras. Por essa razão, o Senhor fez a grande promessa das seis primeiras quintas-feiras e pediu para, a cada primeira dessas seis quintas-feiras começarmos a reparação pela meditação na chaga do ombro.

 

Anexo

 

S. Bernardo: oração à Chaga do ombro de Cristo

 

Ó amabilíssimo Jesus, manso cordeiro de Deus, apesar de eu ser uma criatura miserável e pecadora, Vos adoro e venero a chaga causada pelo peso de Vossa cruz, que dilacerando Vossas carnes, desnudou os ossos de Vosso ombro sagrado de que Vossa Mãe dolorosa tanto se compadeceu. Também eu, ó amabilíssimo Jesus, me compadeço de Vós e do fundo do meu coração Vos louvo, Vos glorifico, Vos dou graças por essa chaga dolorosa do Vosso ombro, em que quisestes carregar a Vossa cruz para minha salvação. Ah! Pelos sofrimentos, que padecestes e que aumentaram o enorme peso da Vossa cruz, eu Vos rogo com muita humildade, tende piedade de mim, pobre pecador, perdoai os meus pecados e conduzi-me ao céu pelo caminho da cruz. Minha Mãe Santíssima, imprimi no meu coração as chagas de Jesus Crucificado. Ó dulcíssimo Jesus, não sejais meu Juiz, mas meu Salvador. Amen.

Santa Brígida: Sete Pai-Nossos

 

Quinto Mistério: O Caminho da Cruz

 

Pai Nosso

eterno, pelas mãos imaculadas de Maria e pelo divino Coração de Jesus, eu Vos ofereço os sofrimentos de Jesus na Via-Sacra, em particular na Santa Chaga do ombro e o preciosíssimo Sangue da mesma, para aliviar o peso da Cruz, como reparação da minha revolta e da de todos os homens contra a Cruz, do meu resmungar contra as determinações da Vossa Santa vontade e de todos os outros pecados de língua, como prevenção contra tais pecados, e para obter o verdadeiro amor à Santa Cruz.

Ave-Maria

 

Beata Alexandrina

 

Para ilustrar um pouco não apenas o significado, mas a própria vivência ligada à Chaga do Ombro, seguem alguns textos dos êxtases em que a Beata revivia a Paixão de Cristo:

“Sinto sobre os meus ombros uma enorme cruz; obriga-me o seu peso a perder a vida no meio dos maiores horrores. Ela abrange o mundo, pesa uma humanidade.” (24.5.1945)

 

“Logo de manhã, tomei a cruz, não a coloquei eu, mas senti que ma colocaram aos meus ombros, e caminhei para o calvário. Que gritos e algazarras de escárnio atrás de mim! Era um eco só. A minha cabeça era uma só ferida. Parecia um só espinho. O meu corpo senti-o como um esqueleto sem carnes e tão desfalecido, como se nele já não houvesse uma única gota de sangue. A dor da chaga do ombro tirava toda a vida ao coração. A força que resistiu, a vida que viveu, foi a força e a vida de Jesus. Oh! como eu O senti também, como Ele estava bem gravado em meu coração e em minha alma! Ai, como a Sua santíssima Paixão é renovada tão repetidas vezes!” (26.10.1945)

 

“Hoje, no caminho do Calvário, senti Jesus curvado dentro de mim, com a Sua grande e pesada cruz. As bagadas de suor que corriam do Seu santíssimo rosto caíam dentro em meu peito. E eu sentia o Seu divino Coração ofegante pelo cansaço. Os Seus lábios iam cerrados, o amor O arrastava. No alto da cruz sentia todas as chagas, mas mais vivamente a do ombro e a cinta ainda parecia ser cortada pelas cordas. A pouco e pouco todo o Calvário ficou em silêncio: só os suspiros de Jesus se ouviam, só a dor reinava aumentada com o rancor de muitos corações que, abafados não sei pelo quê, já não falavam. Eu no meu coração sentia como se todo o mundo maltratasse e apedrejasse Jesus mesmo ao vê-Lo assim a agonizar. Unime tanto às dores da Mãezinha; ansiava com Ela tê-lo em meus braços para curar o Seu divino corpo tão chagado. Que dó, que compaixão por Jesus! Que mútua união de amor e agonia! Veio o meu Jesus e logo transformou a minha alma.” (10.1.1947)