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Direitos humanos que oprimem humanos deveres

José Vitorino de Andrade

 Padre

Há muitos ideais ao longo da História que começaram com o cristianismo, mas que foram contrafeitos neste último século por doutrinas ideológicas de grupos que deles se apropriaram e deturparam, usando-os para os seus próprios interesses e autopromoção.

Foram vários os artigos neste site em que alertei para essa questão, mostrando o equilíbrio dessas mesmas matérias quando próprias à civilização judaico-cristã, e os extremismos que surgiram a partir do momento em que interesses políticos acabaram por acomodá-los aos seus programas, desfraldando-os em bandeiras e slogans partidários. Tem sido assim com o respeito pela obra da criação, ao qual dão hoje o nome de ecologia; com a dignidade da mulher propugnada nos nossos dias pelo feminismo; com as artes e as letras inspiradas por interesses contestatários, ditos “de intervenção”; também as ciências sociais acabaram assumidas pelo marxismo cultural que permeou a docência e tenta contaminar a discência, formando novos prosélitos para um futuro maioritariamente maoista que mais tarde ou mais cedo vícia ou encerra urnas e assume novas formas de totalitarismo. A própria linguagem acaba por ser transformada, não vá lembrar o catolicismo, e assim a caridade torna-se filantropia e solidariedade social, tal como o politicamente correto troca-nos termos como “aborto”, eufemizando-o por “interrupção voluntária da gravidez”; da mesma forma acabaram ressemantizados o livre arbítrio no novo e libertino conceito de liberdade; o amor ao próximo perdeu-se na máxima da fraternidade; e a igualdade terminou rubra de igualitarismos…

A ‘embombada’ declaração dos direitos humanos dos tempos da Revolução Francesa ficou terrivelmente ensombrada pelo período do terror, e embora hoje custe sempre relacionar a guilhotina aos conceitos de liberdade, igualdade e fraternidade, ela foi o instrumento assassino que impôs um novo regime sem liberdade, cortou as cabeças da desigualdade e lançou a divisão num povo irmão anulando a fraternidade. O sociólogo francês Alain Touraine explica que, hoje, ainda se possui certo complexo quanto aos aspetos negativos da história, pretendendo-se reinventá-la: “A França tem tido reticências ao falar dos aspetos sombrios da sua existência. Ela adora reconstruir a sua história. Prefere associar a Revolução Francesa mais à Declaração dos Direitos Humanos do que ao Terror". Não há dúvida que a famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborada no séc. XVIII, reciclada mais tarde pela ONU na sua Declaração Universal, tem como fundamentos basilares a lei natural, desenvolvida sobretudo na Idade Média pela Igreja Católica, e sem a qual seria talvez impossível sequer chegar a um dos documentos mais traduzidos e difundidos pelo mundo, depois da Bíblia. Afinal, “estes direitos fundamentais não foram criados pelo legislador, mas estão inscritos na própria natureza da pessoa humana”. Não é porque a Revolução Francesa redigiu ou a ONU reescreveu que eles existem ou deixam de estar subjacentes ao homem. Estamos a viver com resquícios de uma ética e de uma moral que estão na origem da sociedade ocidental, e enquanto eles existirem, vão sustentando esta humanidade presa a um fio de linha que segura velhos valores religiosos, de solidariedade, família, pessoa e dignidade humanas, que vão sendo atacados e vilipendiados à medida que as novas ideologias, dessorando educações, condicionam as novas gerações.

O sociólogo e filósofo político francês Raymond Aron lembrava que aos direitos dos cidadãos correspondem deveres, cabendo ao Estado promover a felicidade dos cidadãos, mas sem ilibá-los das suas responsabilidades. Hoje, as políticas sociais contestatárias reivindicam direitos e impõem tão somente deveres fiscais. Pagamos para ser livres, alimentando e enriquecendo uma porção de governantes que entretêm o povo com o pão da demagogia e o circo da libertinagem. Desde que paguemos, nada de imoral é negado, pois não se deve contrariar o hedonismo e a satisfação pessoais, ainda que isso empobreça a humanidade em qualidade, número e género. Os direitos fundamentais e os deveres religiosos e sociais foram transtornados e reduzidos aos Direitos Humanos que olvidam as obrigações da pessoa para subverter criminosos, sejam eles de que índole forem, em produtos inocentes da sociedade de consumo. O direito à posse sem o respeito à propriedade. O direito à inocência sem o dever da justiça. O direito a abortar sem o dever de acolher uma nova vida ou o direito egoísta onde não entra o dever da alteridade. O direito ao corpo sem o dever de conservá-lo, ou o direito a morrer sem o dever de preservar a vida. O direito à liberdade sem o dever da responsabilidade, o direito a arrecadar sem o dever de ajudar, o direito, sempre o direito, que acaba de uma forma ou de outra, invariavelmente torto.

É preciso uma mente livre e um espírito profético para fazer frente a esta onda avassaladora e arrasadora, que como uma moda passageira, mais do que nunca arrasa tudo e todos, deixando atrás de si um rasto de destruição civilizacional.

 

Sombras sinistras, opacas e lamacentas ensombram a civilização cristã.