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Ladaínhas Lauretanas

Nobres Invocações Marianas

François Mayrone

A palavra ladainha (em latim litania) deriva do grego litaneia e significa oração, súplica.

No significado actual e genérico, as ladainhas são orações compostas por uma série de breves invocações a Deus, à Virgem, aos Santos. A primeira parte de cada invocação consiste num título sempre diferente, que expressa louvor e admiração. A segunda parte, quase sempre fixa, é um pedido de imploração, ajuda, protecção.

Anteriores às ladainhas marianas, e quase suas matrizes, são as Ladainhas dos Santos (séc. V), que já durante o pontificado de São Gregório Magno (+ 604) se recitavam em Roma na procissão no dia 25 de Abril.

O primeiro testemunho de ladainhas propriamente marianas, no esquema das Ladainhas dos Santos, mas de conteúdo já muito semelhante às sucessivas Ladainhas Lauretanas, vem num manuscrito parisiense do século XII. Neste documento antigo, listam-se 73 invocações a Maria Santíssima, alguns dos quais passaram às ladainhas posteriores que os peregrinos cantavam e recitavam na Santa Casa de Loreto, e daí o título de Lauretanas. Estas contêm os títulos Marianos mais admiráveis, adequados à excelente dignidade e função singular da Virgem na economia da salvação.

Antigos códices manuscritos e livros publicados logo após a invenção da imprensa registam uma notável variedade de ladainhas marianas. Aquelas, no entanto, que se imporão a todas as outras por sua beleza e harmonia intrínsecas são as de Loreto. No mais antigo formulário, que remonta ao século XVI, elas eram 44. Atingiram o número actual de 51, de acordo com o elenco oficial mais recente, graças a acréscimos sucessivos desejados por várias Papas, desde S. Pio V (+ 1572) ao Beato João Paulo II (+ 2005).

No nosso elenco chegámos a 53 ladainhas, porque à lista comum adicionámos os títulos de Regina Ordinis Minorum e Mater Misericordiae. O primeiro título, Regina Ordinis Minorum, foi concedido por São Pio X como um privilégio aos filhos de São Francisco; o segundo título, Mater Misericordiae, é uma prática muito difundida.

A origem dos títulos marianos é em grande parte vétero-testamentária e patrística, mas também há influências da Liturgia e da Tradição posterior.

O primeiro papa a aprovar e indulgenciar as ladainhas recitadas na Santa Casa de Loreto foi o franciscano Xisto V, em 1587.

Por um decreto de 1601, no pontificado de Clemente VIII, fez-se a fixação substancial das Ladainhas Lauretanas no texto hoje conhecido, e a sua afirmação noutros esquemas litânicos. Eis o texto do severo decreto Quoniam multi (6 de Setembro de 1601) do Santo Ofício, ordenado pelo Sumo Pontífice:

 

"Porque, nos dias de hoje, mesmo muitas pessoas privadas divulgam novas ladainhas sob o pretexto de fomentar a devoção; porque circula já uma grande variedade, quase inumerável, de Ladainhas, e em algumas delas foram encontradas expressões impróprias e noutras, coisa muito mais grave, até perigosas e erradas; querendo providenciar com solicitude pastoral ao incremento da devoção das almas e da invocação de Deus e dos Santos, sem o perigo daquele prejuízo espiritual, [Clemente VIII] estabelece e ordena que se mantenham as Ladainha mais antigas e comuns, que se encontram nos Breviários, Missais, Pontificais e Rituais, assim como as Ladainhas que geralmente são cantadas no santo templo de Loreto. Qualquer pessoa que pretendesse publicar outra Ladainha, ou usar nas Igrejas – tanto em oratórios como em procissões – de outras já publicados, que seja obrigado a apresentá-las à Congregação dos Sagrados Ritos, para que sejam aprovadas e corrigidas, se necessário. Não presumam estes divulgá-las em público ou recitá-las publicamente sem a permissão e aprovação da dita Congregação, sob pena (além do pecado cometido) que será severamente infligida, a critério do Ordinário e do Inquisidor ".

 

Desde então, toda a modificação e acrescento às Ladainhas Lauretanas devem ser aprovados pela Santa Sé.

Desde Xisto V, as Ladainhas Lauretanas foram enriquecidos com indulgências por vários Papas, alguns dos quais acrescentaram alguns novos títulos ao esquema primitivo, como foi mencionado acima.

Assim, a tradição diz que São Pio V introduziu a invocação Auxilium Christianorum à memória imperecível da vitoriosa batalha de Lepanto (1571) contra a frota muçulmana, atribuída à intercessão da Santíssima Virgem. O Beato João Paulo II (2005) acrescentou os títulos de Mater Ecclesiae (1980) e Regina familiae (1995). Na estrutura geral das Ladainhas Lauretanas, é fácil distinguir seis secções: 1) três títulos centrados na santidade de Maria; 2) doze títulos centrados na maternidade de Maria; 3) seis títulos centrados na Virgindade; 4) treze títulos bíblico-patrísticos; 5) quatro títulos em honra de Maria como auxiliadora; 6) treze títulos centrados na Realeza de Maria.

No uso comum, muitas vezes as Ladainhas Lauretanas são combinados com a recitação do Santo Rosário, e formam quase uma parte integrante complementar. Isto aconteceu "em seguida à prescrição de Leão XIII para concluir, no mês de Outubro, a recitação do Rosário com o canto das Ladainhas Lauretanas. No entanto, elas mantêm em si mesmas a natureza de oração mariana que pode ser recitada dignamente, mesmo sozinha, independentemente do Santo Rosário.

Existem hoje outras orações marianas em forma litânica, inspiradas no texto bíblico, nos documentos do Concílio Vaticano II ou noutro. No entanto, as Ladainhas Lauretanas mantêm um primado de honra, por causa de sua antiguidade, da aprovação papal, da sua difusão e do nobilíssimo conteúdo.

A objecção que se move, em geral, contra as Ladainhas Lauretanas é a mesma que se opõe à recitação do Santo Rosário. Diz-se que a repetição das mesmas fórmulas é monótona e torna a oração entediante. Respondemos com a Irmã Lúcia de Fátima que a repetição dos mesmos actos é uma das características distintivas da vida. O que a Irmã Lúcia de Fátima dizia sobre o Santo Rosário, também o podemos dizer das Ladainhas Lauretanas: "Deus criou tudo o que existe para que seja preservado graças à repetição contínua e ininterrupta dos mesmos actos e ninguém ainda se lembrou de dizer que é monótono [...]. Bem, na vida espiritual precisamos de repetir continuamente as mesmas orações, os mesmos actos de fé, de esperança e de caridade para ter a vida, visto que a nossa vida é uma participação contínua na vida de Deus" (Gli appelli del messaggio di Fatima, pp. 273-274).

Na Bíblia Sagrada encontram-se Salmos que, devido à sua estrutura peculiar, lembram a oração litânica. Por exemplo, o Salmo 118 e o Salmo 136, em que se exaltam as grandes obras de Deus Criador e Salvador do seu Povo, através do intercalar contínuo do refrão «é eterna a sua misericórdia».

Nada nos impede, portanto, de honrar a Santíssima Virgem Maria com a recitação diária das Ladainhas Lauretanas, depois da do Santo Rosário. A repetição dessas orações nobres torna nobre a nossa alma e embeleza-a com todos os dons preciosos do Espírito Santo.